terça-feira, 23 de agosto de 2016

Vísceras



Às vezes parece que o tempo para. Ou a gente para no tempo.

Dias frios, cinzas, vazios. Repletos de significados, ou cheios de tempo para se fazer ressignificar a própria existência.

Lá fora, o vento. O barulho dos carros e das sirenes. Os gritos de pavor ou de êxtase.

Aqui dentro, silêncio.

Inquietante, sufocado pela avalanche de tons e de notas em que ecoam as vozes dos demônios que habitam dentro da alma.

Um vulcão, há muito, adormecido. Onde dançam as lavas incessantemente, buscando um espaço por onde possam, finalmente, erupir.

Cantos, danças, ritos... todos pagãos. Gritos silenciados pelo excesso de civilidade.

Ecoam, bradam, brincam, ferem, pedem passagem.

Dionísio, Baco, Hefésio, Prometeu, Zeus, Hera, Afrodite, Thor. Todos, misturados, lutam, gritam, festejam, brindam, pedem... ouçam.

Silêncio.

Escuro e vazio, silêncio. Silencio. Grito. Gritam.

A dança das lavas segue... quente, pulsante, inquieta. Viva.

Há tempos em que o tempo para. Há de se observar esse tempo.

Tempo que pulsa e emerge. 

Quente. Vivo. Vísceras. Vida. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Sempre, enfim


Pertenço a lugar nenhum, fora de mim. Vou-me embora sempre. Minha religião é o amor. Sou devota das vontades, que me devoram a alma e me inquietam o espírito. Sou pagã de mim mesma, pertenço ao mundo. Qual mundo. O que me conduz são os desejos, que são e deixam de ser. A incógnita, o vazio preenchido por qualquer coisa que não seja o mesmo. Gosto de gente, das gentes, da gente. Dos sonhos e dos desejos que não me pertencem, mas falam de mim. Flerto com as possibilidades, converso com o acaso, procuro uma rima, um ritmo, qualquer coisa. Qualquer coisa que não seja isso que vem pronto, entregue e digerível. Gosto das possibilidades. Converso com o impossível. Danço com o que não conheço, escrevo sobre o que não sei. Pertenço a nenhum lugar. Sou ar, sou vento, sou asas. Do tédio renasço, reinvento. Me mato e ressuscito. Sou de lugar qualquer. Dos dias que viram noite, das noites que não acabam, dos dias que terminam, das madrugadas que calam. Pertenço a coisa qualquer, não me acho, coisa nenhuma. Me transporto pra qualquer lugar, dentro ou fora de mim. Sou asas, sou ar, sou vento. Intenso que sopra pra dentro. Pertenço a lugar nenhum, vou-me embora sempre. Reinvento sonhos, invento histórias, conto histórias para mim mesma. Ouço, aceito, digo em voz alta, acredito, desacredito. Flerto com meus desejos, desiludo-me com o acaso, visto luto para o impossível, desisto, resisto e vou-me embora. Sempre. Vou-me embora, enfim.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Justificativas

Até hoje, decisões tomadas, sem razões claras. Quiçá, motivações pontuais. 
Nem sempre houve análises profundas, prós e contras. 
Houve escolhas. A princípio, impensadas. 
Aquela intuição, algo dizendo que devia ser assim. Então vamos. 
Decidimos primeiro, pensamos depois. Ou nem pensamos. 
Um belo dia, entre o gole de cerveja e a abocanhada no espetinho, algo se torna claro. 
Uma explicação com a coerência digna de um planejador. 
Que chata a vida de quem calcula tanto. 
Tão mais revelador é num dia desses, despretensiosamente, chegar a alguma conclusão.
Qual foi? Sabe-se lá. 
Foi-se com a espuma da cerveja ou com a fumaça da churrasqueira.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um espelho

No fim, o que resta, são as lembranças dos dias.
Dos medos. Alguns um tanto infantis e outros justificados por sentimentos de auto-preservação.
Das alegrias. Ora cultivadas, ora gratuitas, ora forçadas.
Dos amigos, dos amores.
Ah, os amores. Aqueles que te fizeram chegar em qualquer lugar onde você nunca mais vai querer voltar. Ou aqueles outros que te amaram tanto, mas você deixou passar.
O tempo. O olhar no espelho. Os significados.
No fim, toda a dor vira alegria, pois em algum momento a promessa de rir dela acaba se cumprindo.
A tempestade vira calmaria. E o sentimento de imbecilidade é inevitável.
As guerras, mazelas, por sua vez, seguirão existindo. E as dores que as acompanham também.
No fim, tudo é lembrança. Porque não há de haver tempo que a apague.
E quem sabe nesse fim, alguns equívocos possam ser perdoados. Pelo menos por nós mesmos.

Essencialmente por nós mesmos. 

domingo, 23 de novembro de 2014

O dia em que meu celular não virou crack



“Dizem que existem momentos na vida de uma pessoa que mudam a vida dela pra sempre”. Era isso que estava gravando no celular para eu não me esquecer de como gostaria de começar o texto que eu viria a escrever assim que chegasse em casa. Por isso, caminhava com uma certa urgência. Queria escrever logo aquela história, a do Clebão, uma dessas figuras da cidade que passam por você e te contam sua vida. Desses seres que já passaram por tantas, que hoje carrega um saco de latinhas e um coração consertado. Mas essa é outra história, é pra depois. Não pode correr o risco de se tornar coadjuvante dessa história aqui. 

Por causa da urgência em escrever, deixei meus amigos e parti caminhando para casa. Quando terminei de gravar o texto no celular, fui abordada por uma voz – moça, eu só vou falar uma vez. Aquela fala e aquela voz não me eram estranhas. Há cerca de um mês, de pé, no ponto de ônibus, ouvi essa mesma voz, falando exatamente a mesma coisa para a moça que estava sentada a menos de 3 metros de mim. Mas nessa manhã, a voz estava ao meu lado e falava para mim. Queria um herói naquele momento. Desses que salvam pessoas em perigo em plena 5 da manhã no centro de São Paulo. Não, eles não existem. E na falta deles, resolvi sê-lo, herói de mim mesma. Justo eu, que sempre bati no peito e me gabei por andar tão confortavelmente pelas ruas do centro, a hora que fosse, sem nenhum infortúnio. Até ontem, até essa manhã. Em questão de segundos, me lembrei que na ocasião do ponto de ônibus, essa voz levou o celular da moça. Enquanto eu tentava confortá-la do susto, da invasão, concluímos que o celular dela seria trocado por uma ou duas pedras de crack do outro lado da rua. Não, meu celular não vai virar crack! Decidi então correr. Mas calculei mal a distância entre a rua e a calçada. Caí. Eu de um lado, celular do outro. Ouvi a voz vindo em minha direção, ouvi algumas vozes perguntando se precisava de ajuda. A voz do ladrão se defendia dizendo que eu tinha caído sozinha. A essa altura, joelho sangrando, já estava de pé, andava novamente, e a urgência era outra. Vi as três pessoas que perguntaram se estava tudo bem, saindo correndo quando o ladrão se aproximou. Me virei para o ladrão e gritei SAI! Assim, como se grita a um bicho. E ele saiu. 

Andando, tentando me recompor, caminhei de volta para a presença dos meus heróis, aqueles a quem eu tinha deixado por causa da urgência de escrever. Na volta pra casa, decidi ouvir o áudio que estava gravando no momento da abordagem. E para minha surpresa, está tudo lá. Das palavras que eu gostaria que dessem início à história que está por escrever, ao “sai”. E graças aos meus heróis amigos, fora um joelho roxo e menos inchado do que poderia estar se não tivesse sido cuidado por eles; fora uma sensibilidade por causa do que me acontecera - que convenhamos, não foi tão assustador assim, mas foi o suficiente para me fazer refletir; meu celular não virou crack. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prelúdio

Existem momentos em que a vida parece perder a força. 
Momentos em que o tempo parece querer lhe contar um segredo. 
E é preciso não mais que um profundo silêncio para ser capaz de entendê-lo.
Existem momentos em que essa montanha russa diminui a velocidade e se acalma. É quando ouve-se o vento e abre-se os braços para um abraço, longo, demorado. E os olhos se fecham e passam a enxergar o que está dentro e não mais o que está adiante. 
Existem esses momentos, da pausa, do descontrole do tempo. Dos segredos que a vida pede para te contar, mas que você nunca para para ouvir. 
Esses momentos, que não significam falta de vida, mas um respiro. Um prelúdio.
Existem momentos que a vida pede para que paremos de ter força. Para sermos acolhidos por essa força que nela já existe. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Leve


A crueldade do mundo assusta. Sufoca. 
Tantas palavras ditas e outras tantas mal ditas. 
Por vezes, o medo de fechar os olhos e ser sugada para outra dimensão. 
Por outras, o desejo que o vento leve, branda e leve, como pluma. 
O que se disse, já fora esquecido. O que não disse, arrependido. 
O que se sente é como uma arma, apontada para o próprio peito. 
Uma bala e vários sentimentos.
Uma roleta russa. Um escuro. Um nada. 
De olhos fechados, sinto o desejo, correndo quente e obstruindo as veias. 
De peito aberto, falta espaço para que o ar entre.
A crueldade do mundo cala. 
Tantas palavras que não são ditas. 
O mundo diz não. O mundo não diz. 
Você sorri. E sufoca. E cai.
E como pluma, branda e leve, o vento leva. 
E espera algum gozo no final.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

(Re)Significar-se


Se de amor adoeço, de amor não padeço. 
É no amor que encontro forças e me reinvento. 
Me resignifico. 
Não no amor do outro, que é por vezes egoísta e incerto demais. 
No meu. Errante, frágil, inteiro ou pelas metades. 
Amor pelos sonhos. Pela arte. 
Amor por qualquer coisa que dê sentido aos dias. 
Nele, me redescubro. 
Sobre ele, caminho. 
Em suas águas, mergulho.
Em seu furor, alço voos.
No seu torpor, durmo. E sonho.
Na sua brutalidade, desperto. 
Como ele, vivo.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Inerte

Da música que cessou, fez-se o silêncio. 
Do sol que se escondeu, fez-se a escuridão.
Do tudo que virou nada, fez-se o vazio. 
As flores murcharam. Os pássaros emudeceram. 
O encanto se escondeu. Os sonhos se quebraram.
O corpo vazio, inerte, nada sente. 
O pulso não pulsa. O coração não bate. 
Fez-se o nada. Silencioso. Escuro. Vazio. 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Do silêncio

Céu escuro. Nuvens cinzas insistem em cobrir o azul. É possível enxergar algum azul, mas o cinza persiste.

Esse céu me é familiar. Já o vi em alguns sonhos. O cenário era outro, mas o céu era esse. Era uma praia e havia um anjo. Suas asas eram negras. Ele me observava, de longe, agachado em uma pedra, no mar. Entre nós, nada além do silêncio.

Esse sonho se repetiu uma, duas vezes. O tal anjo nunca me disse nada. Os únicos barulhos existentes eram do vento, vez ou outras das ondas e do meu pensamento incessante.

Não ousei dirigir-lhe a palavra. Nada disse, ou indaguei. Estava lá. Eu, o mar, o anjo negro, as nuvens. Por alguns momentos, me esqueci até dos meus próprios pensamentos. Talvez fosse uma forma de aprender a ouvir o silêncio. Talvez, uma oportunidade de aprender a lidar com os meus próprios demônios.

Mas era um anjo. E seu rosto me era familiar. Mas meus olhos se recusavam a querer reconhece-lo. Apenas o observavam, curiosos, e em silêncio.

A praia, extensa e deserta, parecia um infinito de uma coisa só. Não havia espaço para nada além do que lá já existia. Era tudo perfeito dentro de uma grande incompreensão. E por hora, nem incompreensão havia. Não havia nada. Apenas o vazio habitado pelas pedras. Pela areia. Pelo anjo de asas negras. Por mim.

Não me restava nada a não ser caminhar. Não sentia calor nem frio. Havia algo de confortante.

Tentei me aproximar, mas à medida que eu caminhava em sua direção, ele simplesmente aparecia em outro lugar. Longe. Então entendi que aquele espaço não podia ser encurtado. Entendi que não havia nada que pudesse compreender apesar de tudo parecer incompreensível demais.

Não me opus. Não relutei. Apenas estive.

Naquele lugar de nuvens cinzas, de barulho das ondas, de um anjo de asas negras. Onde a única coisa que reinava absolutamente era o silêncio. Silenciei-me.