terça-feira, 12 de novembro de 2013

Leve


A crueldade do mundo assusta. Sufoca. 
Tantas palavras ditas e outras tantas mal ditas. 
Por vezes, o medo de fechar os olhos e ser sugada para outra dimensão. 
Por outras, o desejo que o vento leve, branda e leve, como pluma. 
O que se disse, já fora esquecido. O que não disse, arrependido. 
O que se sente é como uma arma, apontada para o próprio peito. 
Uma bala e vários sentimentos.
Uma roleta russa. Um escuro. Um nada. 
De olhos fechados, sinto o desejo, correndo quente e obstruindo as veias. 
De peito aberto, falta espaço para que o ar entre.
A crueldade do mundo cala. 
Tantas palavras que não são ditas. 
O mundo diz não. O mundo não diz. 
Você sorri. E sufoca. E cai.
E como pluma, branda e leve, o vento leva. 
E espera algum gozo no final.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

(Re)Significar-se


Se de amor adoeço, de amor não padeço. 
É no amor que encontro forças e me reinvento. 
Me resignifico. 
Não no amor do outro, que é por vezes egoísta e incerto demais. 
No meu. Errante, frágil, inteiro ou pelas metades. 
Amor pelos sonhos. Pela arte. 
Amor por qualquer coisa que dê sentido aos dias. 
Nele, me redescubro. 
Sobre ele, caminho. 
Em suas águas, mergulho.
Em seu furor, alço voos.
No seu torpor, durmo. E sonho.
Na sua brutalidade, desperto. 
Como ele, vivo.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Inerte

Da música que cessou, fez-se o silêncio. 
Do sol que se escondeu, fez-se a escuridão.
Do tudo que virou nada, fez-se o vazio. 
As flores murcharam. Os pássaros emudeceram. 
O encanto se escondeu. Os sonhos se quebraram.
O corpo vazio, inerte, nada sente. 
O pulso não pulsa. O coração não bate. 
Fez-se o nada. Silencioso. Escuro. Vazio. 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Do silêncio

Céu escuro. Nuvens cinzas insistem em cobrir o azul. É possível enxergar algum azul, mas o cinza persiste.

Esse céu me é familiar. Já o vi em alguns sonhos. O cenário era outro, mas o céu era esse. Era uma praia e havia um anjo. Suas asas eram negras. Ele me observava, de longe, agachado em uma pedra, no mar. Entre nós, nada além do silêncio.

Esse sonho se repetiu uma, duas vezes. O tal anjo nunca me disse nada. Os únicos barulhos existentes eram do vento, vez ou outras das ondas e do meu pensamento incessante.

Não ousei dirigir-lhe a palavra. Nada disse, ou indaguei. Estava lá. Eu, o mar, o anjo negro, as nuvens. Por alguns momentos, me esqueci até dos meus próprios pensamentos. Talvez fosse uma forma de aprender a ouvir o silêncio. Talvez, uma oportunidade de aprender a lidar com os meus próprios demônios.

Mas era um anjo. E seu rosto me era familiar. Mas meus olhos se recusavam a querer reconhece-lo. Apenas o observavam, curiosos, e em silêncio.

A praia, extensa e deserta, parecia um infinito de uma coisa só. Não havia espaço para nada além do que lá já existia. Era tudo perfeito dentro de uma grande incompreensão. E por hora, nem incompreensão havia. Não havia nada. Apenas o vazio habitado pelas pedras. Pela areia. Pelo anjo de asas negras. Por mim.

Não me restava nada a não ser caminhar. Não sentia calor nem frio. Havia algo de confortante.

Tentei me aproximar, mas à medida que eu caminhava em sua direção, ele simplesmente aparecia em outro lugar. Longe. Então entendi que aquele espaço não podia ser encurtado. Entendi que não havia nada que pudesse compreender apesar de tudo parecer incompreensível demais.

Não me opus. Não relutei. Apenas estive.

Naquele lugar de nuvens cinzas, de barulho das ondas, de um anjo de asas negras. Onde a única coisa que reinava absolutamente era o silêncio. Silenciei-me. 

sábado, 17 de agosto de 2013

O último dia

Hoje é o último dia da minha vida. O céu amanheceu cinza. O sol acordou com sono. O vento, atordoado, ecoa na janela. Cheiro o café que ainda não foi feito.

Hoje poderia ser o último dia da minha vida. O feixe tímido de luz invade o buraco da cortina. Os sons. As sombras. Passei a gostar de roxo. E o café ainda não foi feito.

Hoje é o último dia da minha vida. O som da água que ferve. O cheiro do café frasco do vizinho. Luzes que não se acendem. Olhos que não querem abrir. 

Sinto. Cheiro, tato. Escuto. 

Hoje poderia ser o último dia da minha vida. Enquanto isso, vivo. E o hoje se acaba. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Nada

No fundo, essas teorias todas, já sei de cor. Frases feitas e consolos prontos. Que a vida é um grande mistério, profundo e fundo. Dos jogos, das brincadeiras vazias e tão falsas. Coleciono teorias e definições. Desculpas infalíveis para a falta de certeza. Observo formas e experiências rasas. Desculpas esfarrapadas de quem não se coloca. De quem nunca está pronto porque nunca se entrega. Espero a oportunidade de ser de verdade. Me contento com a felicidade alheia, tão pequena e burra que cabe num copo e se vai em um gole. Uma golada e um mijo. Essas verdades todas se vão no mijo. As formas tão bonitas e arrumadas. Tão perfeitas e mudas. Em tudo, um grande silêncio. Que ecoa em euforias gratuitas. Que findam em nada e se acabam em mim. 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Amores que vêm e que vão

                                                                   Foto: Adilson Vieira


Se venho até a sacada do quarto e tento ver a lua, nesse céu quase azul de outono, penso que quase posso plagiar aquele que diz que não existe amor em São Paulo. Talvez de fato não haja. 

Mas se é para falar de amor, prefiro pensar nos que não tive. Daqueles que vêm e que passam, depois de um gole de vinho, ou vários. Ah, se essa sacada falasse e pudesse contar meus segredos, ou ainda contabilizar minhas lágrimas de noites de pura solidão. 

Sou daquelas que flerta com cada gole de cerveja e escolhe um amor com quem vai passar a noite. Uma noite, algumas talvez. Mas nunca noites demais para ser um amor daqueles que fazem jus a esse nome. Amores que acontecem na noite e acabam na manhã seguinte. E quando o fim de semana se vai, a cama permanece vazia, edredon e travesseiro, e de lembranças, as cinzas dos cigarros. 

domingo, 26 de maio de 2013

Das sombras

E queria então me apaixonar por tudo que sonhei em vão. 
Uma cidade, um vazio, um lugar.
Um conto feito de notas desconexas. 
De partituras em branco. Sem rimas ou afetos.
As noites escuras e as sombras de feliz solidão.
E nos dias em que o sol brilha de pura teimosia, apodreço. 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

À mimimizice, à firulice, um basta


Quero propor o fim da firulice. Da coisa do disse-não-disse. Desse negócio de ter que decifrar. Justo eu, que tanto falo e pouco digo. E é exatamente por isso. Cansei dos dias de entrelinhas. Proponho um dia de liberdade. Dizer tudo. O que sente, o que quer, o que não quer, quanto custa. Tudo abertamente assim. Sem espaços prévios para negociações. Quero propor um tempo ao pudor, essa coisa mimizenta e tão chata. Às convenções, aos jogos.

Quer falar com alguém, pega o telefone e liga. Não quer falar com outro alguém, atende o telefone e diz. Ama? Diga. Quer estar perto? Fale. Quer tomar um café com o amigo que não vê há tempos? Convide. E aproveite para dizer a razão da distância, se essa razão existir. Ou se prepare para dizer que nada de grave aconteceu para você sumir. Que você nem está trabalhando tão duro assim, que tem sobrado tempo, mas que só pensou em ligar hoje. Porque é assim que acontece. Não premeditamos tudo. Certas coisas simplesmente são.

Proponho por pra fora todas essas coisas que sentimos. Todas essas que, por convenção, a gente guarda. O que há de errado com o que é simples? Se Maria sente o “gostar” e diz que gosta e o João não o sente, que ele diga que não gosta e pronto. Tão simples. Mas ao invés disso, a Maria não pode dizer ao João que gosta, porque se o João souber que a Maria gosta, vai fazê-la de gato e sapato e não vai valorizá-la. Então ela tem que ser firme e fingir que não gosta pra ver se assim desperta o gostar nele. E ele tem que continuar bancando a conveniência. Qual o sentido?

Por que é tão errado dizer o que se sente? Por que não pode? Será que não nos damos conta de quanto lixo guardamos por mera convenção? Desse lixo de letras não ditas e frases não formadas. Dessas doenças causadas pelo lixão que mantemos na alma. Um basta!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Uma breve reflexão sobre o que não se vive mais: o passado


Sim, todos sabemos que passado é um tempo verbal que já se foi. Uma estrada pela qual passamos e que findou num baú que guardamos com algum orgulho, ou alguma dor.

Que atire a primeira pedra quem nunca colocou a cabeça no travesseiro querendo fazer de novo aquilo que se fez e não deu certo. Ou quem nunca chorou pensando naquele dia que poderia se repetir. Ou ainda quem não se pegou querendo, por favor, mais um pedaço daquele pudim. Daquele, lá de trás. Pois você pode até comer um outro agora, do mesmo jeito, mas aquele sabor lá, aquele, já se foi.

Muita coisa se foi mas continua guardada como uma coleção nesse baú chamado memória. E por mais que se tenha total consciência que o ponteiro do relógio não anda para trás, vez ou outra esse baú é visitado. E revisitado se preciso for.

E aí, quando a memória parece ser tão mais real do que uma simples memória, a vontade de trazê-la de volta é angustiante. É como uma tentativa muito forte de ressuscitar alguém que já está gelado de morte. 

Sim, o passado mora longe demais. E pensar em qualquer coisa que poderia ter sido feito diferente para que ele não fosse passado, apesar de ser às vezes um exercício constante, é só uma receita para trazer mais dor.

Algumas dores desse passado, talvez não tenham sido curadas desse tanto. As cicatrizes continuam abertas a seu modo. E qualquer movimento pode reabrir a tal ferida e demorar o dobro para que se faça uma nova pele, fina e frágil. E é melhor que o sangue não jorre.

Às vezes tudo o que se quer é um pó mágico para dormir e acordar naquele dia. Ou uma outra magia, que faça esquecer. Em algumas circunstâncias, o passado é cruel demais para ainda habitar nossa memória. Nossas paredes brancas e nossas noites vazias. Uma dose para o esquecimento eterno. E noites de paz, por favor.